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2 Chamadas Não Atendidas



 

Podem ouvir aqui.


Piano, Bombardino, Oboé. André Louro, Gonçalo Marques e Artur Rouquina.

Senta-te e tira o som ao telefone. 2 Chamadas não atendidas é para estar de olhos fechados e ouvir com atenção.


Em “Berceuse” também eu perderia 2 chamadas. Dois sopros e um piano que nos embalam harmoniosamente. Em menos de um minuto e meio estamos em “Porreiro, Pá”. E sim, levanta-te. Começa a dar uns passinhos de dança enquanto sorris. Sorri abertamente porque três músicos te trazem o melhor de si logo no segundo tema. Um minuto e dez e estás em ansias para perceber o que te reserva “Oh Zé…”. E reserva-te um piano profundo, que te faz suster a respiração. Talvez te faça voltar a sentar, talvez te conte a história de uma paixão-desilusão. Talvez te faça querer cair nos braços de alguém e ansiar aquele beijo. A mim, leva-me para o início de uma história simples.


— Oh Zé, não vás. Beija-me, agarra-me, leva-me contigo.

Ela verte uma lágrima enquanto ele se afasta vagarosamente em passo arrastado.


“O Paninho” mantém-nos na história. Talvez ela entre num auditório onde se perde com o que ouve. Ao sair olha para o telefone “2 chamadas não atendidas”. E a história poderia continuar. Mas voltemos ao disco. Quando volto o trio mantém-se em pleno. Chego junto a eles em plena “Suite do Caos” (o meu tema de eleição deste disco). Em oito minutos e meio fizeram-me querer estar amanhã na Fábrica do Braço de Prata, a vê-los ao vivo. A entrar na história, a sentir as respirações de perto, a deixar-me guiar pelo piano. A deixar que me levem. Sopro a sopro, tecla a tecla. É um daqueles discos que se entranha, pela leveza que nos traz.

Deixo-me levar até ao “Carregado” e prevejo uma “Triste Agonia”. Volto à história.


— Zé? És tu, Zé? – murmura enquanto as pálpebras teimam em querer fechar.

A porta volta a ranger. Põe-se de pé num ápice. O coração bate descompassadamente. O longo vestido preto continua na cadeira.

— Zé? És tu, Zé? – volta a perguntar enquanto ajeita o cabelo. O longo cabelo preso apressadamente.

Pára. Senta-se na cadeira junto ao vestido. Decide manter-se ali e esperar.


Volto ao disco. “Aquário”. E voltamos a passear, a dançar e a sentir a história a mudar. Dou por mim a pensar: eu a ouvir oboé e bombardino? A sério, Margarida?

Desde os tempos de Conservatório que não ouvia oboé. E é bom voltar atrás tantos anos, voltar a ouvir alguns apontamentos que ao meu ouvido soam, agora, estranhos. Talvez ande tão embrenhada noutras sonoridades que só com este disco tenha percebido que existem instrumentos que não ouço com tanta regularidade. Que os anos passaram e que me afastei de alguns sons que me trazem boas memórias.


“Ai, Bonitinha” é o momento de fecho. Em três minutos percebo que o Zé não voltou, que ela perdeu as chamadas e se deixou ficar sentada na mesma cadeira onde repousava o longo vestido preto.


Se gostava de escrever uma narrativa de ficção para este disco? Adorava! Porque entre o Zé e a Suite do Caos muito existe para contar.

Um disco para ouvir atentamente e que nos deixa curiosos para os ver ao vivo.

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