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Entramos no disco devagar. No primeiro tema “Miss Q” os vocalizes e a batida fazem-nos fechar os olhos e em plena pandemia sentir o fresco de um gin a escorregar-nos pela garganta num anfiteatro numa noite quente de julho.

Em “Valéria” estamos perante uma mulher irrequieta, cheia de apontamentos subtis e irregulares. Se descrevesse a Valéria seria simples vislumbrar uma mulher deslumbrante, que caminha elegantemente pela calçada portuguesa. Talvez morena, de olhos claros. Quem por ela passa, não lhe fica indiferente. Esta seria a música que Valéria iria a ouvir enquanto descia a Avenida da Liberdade. Chegada ao Rossio, descansa numa esplanada enquanto lhe servem um café.


Em “Abertura” entramos num groove que nos transporta até ao início da noite. Talvez encontremos por lá a Valéria. Num bar requintado de Lisboa.

O trio (Nuno Costa, Óscar Graça e André Sousa Machado) em plena sintonia numa viagem em que o caminho se trilha a direito, sem curvas e contracurvas, com um desfecho que se prevê harmonioso.


“O Duende do Velho Oeste” segue esse caminho, que nos traz paz no caos atual. Um disco que ao longo dos temas nos permite recostar e usufruir, sem perturbações. Que nos apazigua a mente e nos relaxa os músculos, por vezes tensos da lufa-lufa quotidiana.

Continuo focada no gin, trago a trago, enquanto se trocam conversas sobre o que se está a ouvir. Ora me desligo do piano, ora volto para lá. Deixo-me guiar entre o gin, a companhia e o disco. “O Duende do Velho Oeste” e o seu piano. Esse piano que me traz lágrimas discretas, talvez pela saudade das ruas inundadas de gente em julho.

Costumo escrever sobre improvisação, sobre momentos de diálogo intenso. Desta vez escrevo sobre NoA, sobre serenidade, saudade e, por vezes, uma angústia que se sente enquanto tentamos relaxar no sofá.


Nada melhor que despertar para “Sete Anos ao Tabefe”. Posso dizer que o parágrafo anterior deixou de fazer sentido. Serenidade? Nada disso. Agitação e momento de colocar o gin devagar em cima da mesa. O ritmo cardíaco acelera. Como passar de “Valéria” para “Sete Anos ao Tabefe”? Simples! Basta que se deixem levar pelo disco, sem saltar nenhum dos temas. Sintam como o trio se vai tornando mais intenso. E estejam atentos ao final do tema e início do “Les Trois”. É automática a forma como os meus ouvidos despertaram. Voltei ao mundo sobre o qual escrevo. O encantamento lisboeta ficou lá atrás. Entramos numa zona mais escura, mais sombria em que me transporto rapidamente para uma casa em ruínas onde o jogo de sombras das cúpulas das árvores não me permite parar o olhar.

Saio de lá e vou para “Boas Intenções”. Sento-me e espero que o vento abrande e que a harmonia regresse, nota após nota. E fico, ali. Serenamente sentada. “Noriati” faz com que lentamente me levante e caminhe, compassadamente, para parte incerta.


“All The Things You Are” puxa-nos a sério quando a bateria nos desperta os sentidos – um acordar como eu gosto! Intenso! E a última “Miss Q Intro” leva-nos para o início da viagem. Prontos para voltar a encontrar a “Valéria”.

Um disco para se ouvir de fio a pavio, que nos permite, sem sair de casa, sentirmo-nos numa esplanada, a beber um gin, em boa companhia. A viagem não é linear e isso desperta-nos os sentidos. Que boa surpresa em plena pandemia.



Ficha Técnica


Nuno Costa | Guitarras

Óscar Graça | Piano e Teclados

André Sousa Machado | Bateria e Percussão

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