Monólogos a Dois | Gonçalo Almeida



Podem ouvir e comprar aqui.


Monólogos a Dois é o novo disco a solo do contrabaixista Gonçalo Almeida. Um LP (100 exemplares) editado pela New Wave of Jazz. Partindo do pressuposto que um monólogo é um exercício, por exemplo em teatro, difícil de executar de forma genial, o Gonçalo faz com este monólogo seja fluído, que nos agarre e que escutemos com atenção tudo o que ele tem para nos dizer. É um monólogo que vira diálogo a determinado ponto. O ressoar do corpo do contrabaixo dialoga com ele e connosco.


Um solo de contrabaixo é um desafio. Para ele e para quem o ouve. Não é o instrumento mais fácil de trabalhar a solo. Mas quem tem mão para o dominar obtém resultados como este Monólogos a Dois.

Aos 3 minutos e meio do primeiro tema já me agarrou quando comecei a ouvir ao fundo a subtileza da sua respiração. A agressividade e determinação do arco nas cordas. A história deste monólogo começa a compor-se. Inspira e reencontra-se num ambiente mais calmo e ponderado. E ainda só vamos nos 4 minutos e poucos segundos do primeiro tema. Este tema é o mais longo do disco, aquele em que rapidamente nos é apresentado o melhor do Almeida. Quem acompanha o seu percurso perceberá rapidamente que este solo só podia sair das mãos dele. Algo de muito próprio, que nos leva do ambiente mais apaziguador ao rock numa cave algures entre Lisboa e Budapeste.


O Gonçalo sempre me inspirou a construir narrativas, tanto nos seus discos como nos seus concertos ao vivo. A sua presença complementa o que compõe e executa. No segundo tema já tenho dois personagens e um enredo. Já escrevi um conto com um solo dele (que foi publicado no DizSonâncias há algum tempo), mas este monólogo tem pano para mangas.


O segundo tema leva-nos por pequenos trilhos. São pouco mais de dois minutos, mas sabemos que os trilhos nos levarão a um lugar que não nos irá desiludir.


Rapidamente passo do tema 3 para o 4, talvez pela pressa de perceber o que mais irá acontecer. Tenho vontade de poder escolher o que vai acontecer quando no fim daquele minuto e trinta se ouve aquele estalar. Sim, o Gonçalo consegue aguçar-nos o imaginário e a mente, agarra-nos pelos sentidos.


Talvez por andar mais sensível comece por me emocionar no tema 4. Os graves do contrabaixo, a respiração do Gonçalo, a rispidez e intensidade do que ouço levam-me até sítios menos sorridentes. Trazem até mim a melancolia e a tristeza. E isso não tem absolutamente mal nenhum, pelo contrário. Sentir. É assim que vivo a música. Esta relação empática e visceral que tenho com a música faz com que a cada disco e a cada concerto me deixe levar num turbilhão de emoções e sensações.


Ainda nem vou a meio do disco e já sorri, respirei fundo, chorei, parei, voltei e continuei. No tema 6 consigo finalmente recompor-me. Aqui começa, para mim, o diálogo mais efusivo entre instrumento e músico.

Chegámos a meio do disco, num crescendo contínuo. Anseio que a viagem dure, mas a curiosidade por descobrir como acaba deixa-me irrequieta. A respiração do Gonçalo volta a remeter-me para o quanto o contrabaixo é um instrumento físico, possante, desafiante e encantador. Sim, assumo, sou e serei sempre uma apaixonada pelo contrabaixo.


Entre o tema 7 e o 8 percebemos que o caminho se constrói de pequenos e subtis apontamentos, de deixar o som perdurar no tempo e no espaço. Deixar que flua e ecoe.

Gosto sempre quando um tema me traz sons que associo a quando era criança. No meu imaginário o subir e descer uma escada está presente no tema 9. Era assim que as histórias se construíam na minha mente em criança e que faz com que ainda hoje as escadas sejam um tema recorrente nos meus contos. Isso e a água que corre sempre perto dessas escadas.


Volto à idade adulta logo a seguir. Mantenho a respiração acelerada. Retira-me o fôlego durante 3 minutos e 16. Sim, ele consegue fazer-nos isso. Dúvidas? É ir ouvir.

É nos temas como o décimo primeiro que considero que o Gonçalo é inigualável. O ambiente mais pesado e intenso, os graves vincados e constantes. É exatamente nesse registo que o seu monólogo se intensifica, que tudo se torna mais visual. É quando com enorme facilidade se desenham cenários, numa iluminação quente em fundo negro.


E este é, para mim, O tema deste LP. É tudo o que eu esperava numa malha só. E se o disco já me fez ganhar a noite, este tema já me fez ganhar o início atribulado de 2021. É por temas como este que não se quer perder um gig do Gonçalo quando vem até Portugal (e infelizmente eu tenho perdido muitos).


Num minuto e cinquenta e nove segundos fechamos o Monólogo a Dois. Que disco tão bem conseguido!

Para mim estará nas listas dos melhores de 2021 e ainda agora o ano começou. O trabalho do Gonçalo fascina-me e deixa-me sempre expectante com o que ele irá editar e apresentar a seguir.




Ficha Técnica


Released January 21, 2021


Gonçalo Almeida - Doublebass


Performed & recorded at the Old Church in Oud-Charlois, Rotterdam (The Netherlands) on 11th July 2020.


All music by Gonçalo Almeida.

Recorded & mixed by Gonçalo Almeida.

Mastered at the Sunny Side Inc. Studio, Anderlecht (Belgium).


Gonçalo would like to thank Jaap van Gils, Oud-Charlois Kerk and Dirk Serries.


Sleeve notes : Guy Peters.

Layout : Rutger Zuydervelt


Edition of 100.

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